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Decreto nº 8.497 – Qual a real intenção do Governo Federal?

A comunidade médica brasileira recebeu com espanto e indignação, mas sem surpresa, o decreto nº 8.497 da Presidência da República, publicado no último dia 5 de agosto. Criado sob despretensioso e inofensivo objetivo de “formação do Cadastro Nacional de Especialistas”, o decreto traz uma série de artigos que versam sobre muito mais aspectos do que mera organização de informações sobre médicos especialistas brasileiros. Informações estas, já disponíveis ao Ministério da Saúde na base de dados do CFM (Conselho Federal de Medicina), autarquia responsável pelo registro das informações médicas e no próprio sítio eletrônico da AMB (Associação Médica Brasileira).
No pacote da comemoração de dois anos do programa Mais Médicos, o decreto assinado é recheado de artifícios legais, permitindo que o Ministério da Saúde avance no seu projeto desenfreado de banalização e mercantilização da formação médica, com objetivo de formar pseudomédicos (e agora pseudo-especialistas) em escala industrial e poder seguir ludibriando a população, sempre focando na quantidade, e irresponsável e descompromissado quanto à qualidade. Foi assim com o Mais Médicos, que não exigiu o “revalida” e nem tradução juramentada dos diplomas dos médicos estrangeiros. Agora, a lógica é a mesma. Para esse governo, não importa se resolve o problema da população. Importa gerar resultado eleitoral.
O processo de formação de especialistas no Brasil já funciona de maneira exemplar há mais de cinquenta anos, financiado também de forma privada pelas sociedades de especialidades. Este sistema já formou mais de 150 mil especialistas, número acima do processo controlado pelo governo (residências médicas).
Desde 1958, a AMB emite títulos de especialistas no Brasil. Vários centros formadores ligados às sociedades de especialidades têm formado médicos especialistas objetivando a qualidade e avanços científicos. Para isso, seus sócios contribuem de forma voluntária em todos os estados da federação. Visando uniformidade entre todas as formas de especializações, em 2002 foi assinado um convênio entre Governo Federal (por meio da Comissão Nacional de Residência Médica), AMB e Conselho Federal de Medicina, criando uma instância tripartite – Comissão Mista de Especialidades. Desde então, a comissão trabalha de forma democrática e independente, apresentado excelentes resultados.
Sempre há espaço para melhorias, lógico. A AMB sempre esteve aberta a dialogar e faz na própria Comissão Mista de Especialidades. Neste cenário, é consenso que talvez nenhuma outra área da saúde brasileira esteja tão bem resolvida quanto esta. Não se precisa na formação de especialistas médicos no Brasil de atitudes intempestivas, inconsequentes e sem visão de longo prazo.
Por que o governo quer mudar de forma unilateral as regras de equivalência das titulações de especialização, sem discutir com os verdadeiros e legítimos guardiões da formação de especialistas médicos no Brasil? Por que fazer de forma escondida, num decreto que regulamenta a “formação do Cadastro Nacional de Especialistas”? Por que tentar desestruturar a Comissão Mista de Especialidades, que tem expertise e reconhecimento na classe médica, está ativa e apresenta resultados positivos, mensuráveis, respeitados e reconhecidos há anos? O objetivo é melhorar a formação de especialistas ou derrubar todas as barreiras e entidades que impeçam o avanço do processo de banalização e mercantilização da formação de especialistas? Já padecemos de mal semelhante com a proliferação na graduação da medicina com cursos criados sem critério, controle ou qualidade, cujo resultado pode ser comprovado pelas notas obtidas por estudantes (exame do Cremesp).
Se já tem acesso aos dados dos médicos especialistas via CFM e é representado na Comissão Mista de Especialidades por meio da Comissão Nacional de Residência Médica, por que o Governo Federal resolveu mudar as regras do jogo? Nitidamente, algo o desagrada no cenário atual ou o impede implementar ações como as que vem promovendo nos últimos anos e que têm tornado o Ministério da Saúde um órgão muito mais afeito aos objetivos de propaganda e eleitoreiros do que é cuidar adequadamente da saúde dos brasileiros.
Esta esquizofrenia de propósitos, além de drenar recursos escassos, também pode custar vidas. Além disso, catalisa o caos existente no sistema de saúde do País. De tijolo em tijolo, o atual governo está desconstruindo o que ainda sustenta o sistema de saúde do Brasil.
Os riscos gerados com possibilidades de intervenções governamentais permitidas pelo novo decreto são enormes e assustadores, pois não há motivação legítima e tecnicamente justificável para que essas intervenções existam. Isso gera grande insegurança jurídica, social e científica. E levará à total desestruturação da formação médica brasileira.
No entanto, engana-se quem pensa que os médicos atualmente titulados perdem com isso. Quem perderá, como sempre, será a população. Principalmente a mais pobre. Os médicos já formados pelos critérios, modelo e com o selo de qualidade atuais terão vantagem sobre os novos. Será criada pelo Governo Federal medicina para pobres e medicina para ricos. A população terá que escolher entre os médicos que realmente se especializaram e aqueles que se titularam de forma “alternativa”. Tudo isso para que Governo Federal siga utilizando a sua máquina de propaganda montada dentro no Ministério da Saúde e, assim, continue bradando falsas conquistas no atendimento à população, como maior disponibilidade de médicos ou de especialistas.
No início do segundo mandato, a Presidente da República conclamou o “diálogo”. O próprio Ministro da Saúde reuniu-se com a AMB reafirmando tal intenção. Contudo, mais uma vez, o Governo Federal usa a sua “mão de ferro” estatal contra os médicos sem que sejam ouvidas previamente as sociedades médicas, a academia, os estudantes e demais entidades. Unilateralmente interfere de forma preocupante, lembrando países vizinhos com vieses totalitários.
A AMB proporá a parlamentares do Congresso Nacional Projeto de Decreto Legislativo para frear mais esta ação desmedida do Governo Federal e solicitará apoio dos congressistas em prol da saúde brasileira.
A partir de agora as entidades médicas nacionais só se reunião com o Governo Federal em conjunto, pois mensagens recebidas são sempre diferentes e conflitantes para cada entidade. É preciso clareza e transparência para o bem da saúde.
Por fim, a Associação Médica Brasileira conclama todos os médicos e sociedade como um todo a comparecerem nas manifestações civis do próximo dia 16 de agosto, para o bem da medicina e da saúde do Brasil.
Dr. Florentino de Araujo Cardoso Filho
Presidente da AMB
Carta de apoio aos residentes da EPM-UNIFESP
Associação dos Médicos Residentes da Escola Paulista de Medicina (AMEREPAM)
Diretoria da Escola Paulista de Medicina (EPM)
Diretoria do Hospital São Paulo (HSP)
Diretoria do Campus São Paulo da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
Reitoria da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
Câmara Técnica do Médico Jovem do Conselho Regional de Medicina (CREMESP)
Manifestamos nosso total apoio aos colegas e médicos residentes da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP) na iminência de paralização e início de processo de greve em decorrência da atual realidade deficiente na organização do ensino e assistência, conforme carta-deliberação enviada. A situação apresentada é consoante com o retrato da realidade de todo país a partir do decisão do Governo Federal em contingenciar, por meio do decreto no 8456, de 22 de maio de 2015, em R$11,774 bilhões o orçamento para o Ministério da Saúde. O corte supra citado vem a retroceder as conquistas para o Sistema Único de Saúde (SUS) em 27 anos de sua existência e prejudicar o seu para o seu papel formador de recursos humanos em saúde, interferindo diretamente na qualidade da formação e residência médica.
Reconhecemos com louvor a atitude dos colegas residentes da EPM-UNIFESP no sentido de reivindicar melhores condições de ensino, sem nunca esquecer de nosso objetivo primeiro: a assistência ao paciente. Também frisamos como louvável o processo ético desencadeado por esses protagonistas que determinaram o processo de negociação e diálogo com as instâncias diretivas da instituição como marco para a lisura do processo, sem deixar também, e principalmente, de estar atento às questões apontadas pelo conselho gestor da região e à população atendida, a qual sofre com a falta de materiais, corte na escala de cirurgias eletivas, ausência de recursos humanos em número suficiente, dentre outros.
Lembramos que o médico residente é um profissional em formação e, portanto, requer estrutura mais próxima do ideal para que, dentro da complexidade da visão humanista a que sempre se propôs a EPM-UNIFESP nos seus mais de 80 anos de existência, possa receber os ensinamentos necessários à atuação nas mais diversas esferas e níveis de atenção de nosso SUS, sem nunca deixar de pensar no cumprimento da Constituição Federal e oferecer saúde a todo cidadão, ainda que para isso seja necessário paralisar os atendimentos de maneira a buscar as devidas providências para uma questão não mais passível de espera ou de remendos frente à premência de solução definitiva a todos os doentes que os procuram buscando um atendimento equânime e de qualidade.
Seja no próprio Hospital São Paulo, referência para toda metrópole onde está inserido, seja para os ambulatórios do complexo do Campus São Paulo da UNIFESP, seja para os estabelecimentos de saúde na atenção primária, dispostos por toda cidade, fica claro o prejuízo no ensino e assistência frente à realidade temerária apresentada atualmente, realidade esta que nos coloca de maneira consensual e imperativa lado a lado na luta por melhorias imediatas e efetivas à situação.
Entendemos, por fim, que a reordenação de gastos nas esferas diretivas e gestoras locais deve priorizar o correto atendimento aos usuários e ensino aos médicos-residentes sendo necessário que haja um posicionamento urgente frente à falta de estrutura física e suprimentos (medicação, materiais), diminuição do contingente de servidores e inadequação do funcionamento de vários setores, principalmente o pronto-socorro, segundo apurado junto aos médicos residentes do Hospital São Paulo, bem como dos demais estabelecimento a ele ligados, valorizando o papel fundamental do médico-residente e de seus preceptores.
Acreditamos que somente com assistência e ensino de qualidade podemos construir o SUS que almejamos para nossos familiares e usuários de todo Brasil e nos colocamos desde já como contribuintes do processo de reestruturação da EPM-UNIFESP, os representando nas instâncias executivas da Comissão Estadual de Residência Médica e da Comissão Nacional de Residência Médica.
São Paulo, 18 de Junho de 2015.
ARTHUR HIRSCHFELD DANILA
Presidente da Associação Nacional dos Médicos Residentes (ANMR)
DIEGO GARCIA
Presidente da Associação dos Médicos Residentes do Estado de São Paulo (AMERESP)
JOSÉ CARLOS ARROJO JÚNIOR
Diretor da Associação dos Médicos Residentes do Estado de São Paulo (AMERESP)
e residente de Medicina de Família e Comunidade da EPM-UNIFESP